quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

EIS QUE ME REVELO

A Katie, a quem desde já agradeço o facto de se ter lembrado de mim, resolveu desafiar-me da seguinte forma.
Revelar uma lista de coisas que quase ninguém sabe sobre mim.
Humm…
Bem, sabem que mais? Decidi levar isto a sério. Sem medos. Cá vai...



1 - Nunca lhe disse nem ouvi a minha mãe dizer-me, a palavra “amo-te”. Desde muito cedo, a nossa relação foi algo difícil, complicada. Não imaginam como o arrependimento consome por dentro, cada vez que penso que nunca mais terei a oportunidade de o fazer. Por mais complicada que a relação seja, não deixem passar a oportunidade de demonstrar os vossos sentimentos. A vossa oportunidade de dizer:
- Mãe, Pai, eu amo-te.



2 - Durante algum tempo da minha vida, vivi um problema com drogas. Tive o azar de experimentar quando era adolescente inconsciente e, quando dei por mim, já não era eu que brincava, mas ela que brincava comigo.
Travei uma grande batalha, principalmente dentro de mim, contra uma adição. Ganhei essa batalha, hoje estou limpo há algum tempo, o suficiente para me sentir como qualquer outra pessoa, nem mais nem menos. Mas não me descuido, não baixo os braços ou penso que a guerra está ganha. Simplesmente, hoje o meu caminho é o oposto. Hoje eu escolho a vida… Amanhã farei por isso, por continuar a pensar como hoje.



3 - Durante muito tempo, fui alguém com níveis alarmantes de baixa auto-estima e confiança. O suficiente, por exemplo, para não me entregar ao amor porque, simplesmente, reinava em mim a ideia de que não tinha direito a tal luxo. Que era impossivel alguém se interessar por mim. Como a mente de uma pessoa pode ser tão complexa, tão complicada. Demorou tempo a descobrir que o principal, é interessarmo-nos por nós próprios. Só nessa altura é possível despertar interesse nos outros. Tal como a publicidade: Se eu não gostar de mim, quem gostará?



4 - Sempre fui muito tímido. Mas botem timidez nisso! Felizmente, é algo do qual me tenho vindo a libertar, com o passar dos anos, com a chegada de uma maturidade que me conferiu o gosto por ser quem sou. Sabe tão bem olhar ao espelho, não só aquele se vê, mas também o que se sente, e gostarmos do que vemos. Principalmente, para quem nem sempre se olhou assim. Principalmente, para quem sempre se desconsiderou.



5 - Não existe nada que trave a minha vontade. Mas admito que só reajo quando o desespero se apodera, só na hora H, quando já não há outra solução, arregaço as mangas e vou á luta. E aqui, o que mais me custa, é saber que prejudiquei e magoei pessoas assim, com esta minha maneira de ser. Resta-me sentir arrependimento por isso. Há coisas em nós que, por mais identificadas que estejam, é muito difícil lutar contra. Por estarem tão presas á nossa personalidade...



6 - Sou egoísta. Não a nível material, porque o que tenho, divido. Se tenho um, é metade para cada um. Chego a fazer o que alguns chamam de burrice, ao ficar com a parte mais pequena. Não é esse tipo de egoísmo, a que me refiro. Refiro-me sim, ao egoísmo sentimental.
Desde muito novo, muito mesmo, senti-me sozinho. A minha mãe e a minha irmã sempre tiveram uma ligação muito forte e eu sentia-me de parte. Tantas e tantas vezes…
Ainda em tenra idade, senti necessidade de aprender a sobreviver sozinho, no meio de três pessoas. E, inconscientemente, desenvolvi este tipo de egoísmo. O pensar primeiro em mim e depois nos outros. Tenho isto identificado, mas só o facto de ter consciência de que sou assim, faz-me sentir mal comigo. Tento combater isto, como um objectivo que levo muito a sério, mas como saliento algumas linhas acima, não é fácil lutar contra a nossa personalidade. É necessário ter humildade e muita vontade de ser alguém melhor. Melhor para mim mas, principalmente, melhor para quem me rodeia. Porque a maior parte das vezes, são essas pessoas, as que mais sofrem com os nossos erros e defeitos.



Bem, acho que já me "despi" o suficiente. Talvez até mais que suficiente, mas…
Meus amigos, não tenho vergonha de quem sou. Muito pelo contrário. Hoje, vivo a vida de cabeça erguida e com orgulho, pelo que já passei, de quem sou e serei.
Para algumas pessoas, o que escrevi talvez altere a ideia que tinham de mim. Mas sinceramente, prefiro que tenham a exacta ideia de quem sou, independentemente de gostarem ou não, do que terem uma ideia errada.
É verdade que nem todos se expõem desta forma. Pelo menos, não aqui. Mas em democracia, cada um é livre de fazer o que bem entende. Desde que a sua liberdade não condicione a de outros.
Tal como digo na descrição do Autopsia das Palavras, “quando há liberdade, o limite é a tua consciência”.
E a minha, essa está tranquila. ;-)

Posto isto, vou terminar este desafio, contando-vos o que foi sem dúvida, um dos dias mais caricatos da minha vida.
Para rir um pouco, se for caso disso. Que dia do “catano”…



A história passa-se na praia da Lagoa de Albufeira, durante o início da primavera de 2005.
Embora soprasse algum vento, o dia até estava bastante agradável o que, inclusivamente, proporcionava a alguns pescadores, desfrutarem de um excelente dia para a prática.
Fazia-se sentir uma corrente de norte ao longo da costa, o suficiente para ser necessário estar a remar, só para manter a posição no local correcto.
Após mais uma onda, o bom do João começa a remar para fora em direcção ao “pico”.
(O pico é o local onde a onda quebra inicialmente. Quando se rema numa prancha de surf, só os braços mexem, as pernas ficam hirtas e unidas, a não ser quando o surfista se faz á onda. Nessa altura, vale tudo).
É nesse momento que, ao tentar afastá-las, sinto alguma resistência, como se estivessem atadas. A princípio, não percebi o que estava a acontecer, mas quando levo a mão abaixo, sinto fio de nylon a envolver-me as pernas. Imediatamente, olho para terra e deparo-me com o pior cenário possível:
Um pescador a dar á manivela, cheio de pujança, tentando recolher o fio de nylon. Imagino que, na cabeça dele, pela resistência e peso do peixe que estaria preso ao anzol, o dia estava mais que ganho.
- Mas que bela pescaria! Deve ter pensado, por momentos.
Começo a esbracejar vigorosamente para que ele percebesse, realmente, o que estava a fazer.
Bem, nem consigo descrever a cara do homem, quando se apercebe de que não era um peixe que estava preso no anzol.
Remo para terra e o pescador apressa-se a vir ter comigo, desfazendo-se em desculpas pelo sucedido. Obviamente, o pobre do homem não teve culpa. Acalmei-o e disse-lhe que estas coisas aconteciam.
Ok, até agora não conheço outra igual, mas…
Enquanto retirava o fio de nylon, vi onde o anzol se tinha prendido. No cabo que liga a prancha ao meu tornozelo.
Posso dizer que tive muita sorte. Existem sítios bastante piores, onde o anzol poderia ter cravado. É só pôr imaginação a funcionar…
Entretanto, o senhor acabou por ficar perturbado com o sucedido, arrumou as coisas e foi-se embora.
Eu também acabei por perder a vontade e rumei para o carro, que estava no parque de estacionamento junto com outros.
Chego, pouso a prancha no chão e abro a porta. Deixo esta entreaberta e começo a tirar o fato isotérmico.
Nesse momento, sem que pudesse prever, uma rajada de vento faz abrir a porta totalmente, e esta bate violentamente contra o carro do lado.
Levo as mãos á cabeça. O outro tinha ficado amolgado e com a pintura lascada. Observo á volta, na esperança de ter passado despercebido. Ok, admito. Não ia deixar nenhum bilhete. É condenável, bem sei. Mas iria pagar por isso…
E eis que, no preciso momento em que tento certificar-me de que ninguém tinha visto, uma família caminha na minha direcção. Ligeiramente á frente, vinha um homem, na casa dos cinquenta que, armado com um sorriso mordaz, chega ao pé de mim e diz:
- Tiveste azar, rapaz. Se eu não tivesse visto, possivelmente ter-te-ias safado.
O homem era tão-somente o dono do carro danificado.
Nesse momento, senti uma angústia tão grande, uma ausência de fé em tudo! Definitivamente, este não era o meu dia. Estava no fundo do poço, literalmente…
Resignado á evidência, dei-lhe os meus dados e comprometi-me a providenciar uma oficina para reparar o dano.
Diga-se, de passagem, que o senhor até foi simpático. Podia simplesmente ter-me enviado a conta do arranjo para eu pagar.
Mas calma, ainda há melhor.
Dias depois, após ter tudo acertado com o pintor e o bate-chapa, entro em contacto com a pessoa que, inesperadamente, entende perdoar-me, desistindo do arranjo. Mas tenho ou não tenho sorte?
Nesse dia, que me recorde, não aconteceu mais nada de relevante. Mas ainda queriam mais? Fica para outro dia, pode ser?



Agora, se me permitem, vou passar este desafio a quem o quiser levar. Livre de encargos e direitos de autor.
Está alguém desse lado que se queira revelar?

terça-feira, 10 de Novembro de 2009






Hoje, choro sem vergonha.
Choro de raiva e de tristeza.
Choro por tudo e choro por mim.
Choro por nada...
Hoje deito-me assim!

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

FICO ALI

Perco-me por aí…
Parece que nada permanece, de pé aqui.
Deixo-me ir e acabo inebriado.
Absorvido por palavras, olhares, pensamentos.
Esboço um sorriso que se apaga,
ao vacilar nesta peleja interior.
Sento-me mas não quero ficar.
Saio quando queria entrar...
O meu mundo é calado.
Tudo o que guardo cá [dentro]
É clandestino para ti...
Fico ali só, como encantado, a olhar.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

DeSdObRaMeNtO cOrPoRaL

Imagem - Iberê Camargo / 1992
Vou ao Médico.
Tenho um desdobramento corporal causado por um sonho que ficou preso no Lobo Frontal.
Tentei definir as sequências do movimento dos planetas, atraídos pela gravidade do pensamento criativo.
Não consegui sair do abstracto.
Era, para mim, uma tarefa difícil.
Julgo não ter planeado bem o estratagema para executar a acção desejada.
Ainda tentei recorrer á capacidade para ligações emocionais mas continuei bloqueado na atenção selectiva.
E fiquei triste...
Procurei uma resposta afectiva que conseguisse explicar o meu erro.
Esbarrei no julgamento social e permaneci assim, obstinadamente preso a estratégias que não funcionam.
Quantas manipulações serão necessárias para conseguir evitar um trauma no córtex pré-frontal, Sr. Dr.?



O que o amor faz a um homem que não sabe amar...

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Deixa-o adormecer (experimental)

Guardo na memória o essencial.

O passado, nesse não toco.

Não por querer esquecer,

mas para não lembrar.

Prefiro deixá-lo adormecer...

Pesa quando o acordam,

quando o trazem ao presente

e o entornam em cima de mim.

Mesmo se fosse imparcial...

São pedras que lançam,

lágrimas que extraem no fim.

Por isso, guardo na memória o essencial.

O passado, nesse não toco.

Prefiro deixá-lo assim...